janeiro 20, 2010
Categorias: a grande Politik . Tags:manifestação, COP15, Copenhagen, clima, polícia, Dinamarca . Autor: Manguelita . Comentários: Deixe um comentário

Quem disse que nunca iria ter uma revolução na Alemanha porque os alemões não pisam num gramado que está proibido pisar? Bem, quem disse foi um cara que já tá morto há bastante tempo. Pelo menos nas universidades, os estudantes ocuparam gramado proibido: Desde o começo de Novembro, a maioria das universidades está com um auditório ocupado.
Enquanto que a »greve da aprendizagem« no verão foi organizada pelos sindicatos e grêmios oficiais, o »outono quente« que rolou agora foi anunciado por eles, mas aconteceu espontâneo e só com o apóio posterior deles.
Tudo começou na Austria, em Viena. Um auditório lotado de estudantes reclamando das condicoes ruins: Seminários cheios, poucos professores, o sistema do Bachelor com o fim de ser um bom empregado e não de ser uma mente independente (este negócio de Bachelor eu tentei explicar na entrada Teenage Riot com Humboldt). Os estudantes da Alemanha assistiram tudo na TV e nos blogs e pensaram: Puxa merda, nos temos os mesmos problemas e esta greve parece divertida! Será que a gente consegue também?
Conseguiram! Do Sul pro Norte, das grandes cidades até as pequenas, o pessoal jovem ocupou um auditório após o outro. Bem, não foram massas como na Austria – foram grupos pequenos que tomaram a inicitiva. Talvez foi uma revolução da elite. Mas isso é comentário meu. Vamos voltar para os fatos: No total, foram mais que 60 universidades com auditório ocupado. Veja a lista das cidades no blog www.unsereunis.de
Até na nossa cidadezinha Lüneburg, o Hörsaal 1 foi tomado por um grupo jovem de estudantes de Bachelor. Sabendo dos erros do grêmio e dos preconceitos da maioria de estudantes contra ativos da esquerda, eles começaram o projeto de uma maneira esperta: Chamando o Hörsaal 1 de um espaço livre, sem conteúdo até que os estudantes o enchessem com propostas. Funcionou. Vieram muitos estudantes pra os debates. Veio o Reitor da faculdade. Teve manifestações, música, palestras, cozinha aberta. E toda noite, uma galera de umas dez pessoas dormia lá. As fotos aqui são todas das ações em Lüneburg. Veja o blog www.hoersaal1lg.tk
Porquê todo este esforço? A universidade Leuphana de Lüneburg não sofre daquele problema de seminários lotados. No Campus, é paz. Mas olhando de mais perto, se vê que a Leuphana está passando por um desenvolvimento assustador: o reitorado conseguiu enfraquecer as estruturas democráticas e está realizando sua visão da universidade economizada sem enfrentar maiores obstáculos. Os estudantes de Bachelor já não têm o tempo pra pensar sobre política universitária. O governo federal é conservador-liberal e apoiador fiel da idéia de criar uma universidade pra a elite (econômica, nao intelectual) no interiorzão da Baixa-Saxônia. E ainda temos que pagar 700 Euros por semestre numa universidade pública! Motivos suficientes pra ocupar vários auditórios.
Agora é Natal, o pessoal tá cansado, saiu do auditório. Com uma festa e uma declaração chamada »Hörsaal 1 é a universidade toda«. Exigiram uma outra sala pra uso contínuo dos estudantes, um espaço livre para discussões, relaxamento, atividades culturais. Vamos saber só no ano que vem se isso vai dar certo. Se não, ainda tem bastante gramado proibido esperando por alguém pisá-lo.
Fazer depilação ou epilieren - as palavras se parecem, uma das poucas semelhanças entre o português e o alemão. Deve ter uma raís latim, não acho que essa palavra tem origem na Alemanha, o provavelmente penúltimo país onde se ouviu falar em tirar pelo.
Na Alemanha, as pessoas não falam muito sobre depilação. Durante 10 meses do ano, ninguém pode saír de shortinho mesmo por causa do frio. E digamos 20% das alemãs têm pelo loiro, aí depilação não faz a menor diferença no visual delas. Agora as peludas, não-loiras com namorado que tira roupa delas até no inverno estão diante de uma escolha difícil; somos um país de individualismo extremo e uma característica de culturas hyper-individualistas é o excesso da escolha:
Você é feminista da escola velha? Então não tira o pelo. Você quer um visual depilado mas não é rica (esse é o maior grupo)? Então passa gillette nas pernas e axilas. Você é rica? Então pode ir ao salão de beleza.
Meu grupo é: Não sou rica, odeio gillette e aguento dor. Comprei uma maquininha para depilação da meia perna, o resto dói demais. Na loja perguntei por um aparelho para «Depilieren». Um «d» demais. Nem sei mais falar minha própria língua maternal, eu, que achava de mim que tivesse talento literário. Caraca. Mudei esses planos románticos de vida de escritora e estou começando uma carreira prometedor. A história é a seguinte:
Quando cheguei em São Paulo, vindo da Alemanha, fui como sempre pra um salão no primeiro dia. Aí fui e a depiladeira pergunta: «Faz tempo que não fez depilação, não é?» Falei «é, verdade. Acabei de chegar da Alemanha e lá não tenho condições de pagar salão». Ela teve uma idéia: «Se é tão caro assim na Alemanha, porque não aprende fazer você mesmo?» Ela me chamou pra casa dela, pra aprender a depilar «à brasileira». Falei «tá combinado então». Eu vou lá na casa dela, aprender. Voltar pra Alemanha, aí vou abrir um negócio com futuro, já que o planeta tá esquentando; mais oportunidades pra sair de short. Vou abrir meu salão de beleza, cobrar bastante, trabalhar por 5 anos e viver o resto da minha vida feliz e rica no Brasil. Um sonho bem brasileiro, afinal das contas.
Qual é o momento mais temido por um professor / uma professora de alemão no Brasil? Será que é quando alguém da sala pergunta como que era aquele negócio do Hitler? Ou sobre as regras de declinação dos adjetivos?
Quase. O maior terror é realmente quando é para falar sobre música alemã:
»Quem que é tipo o Chico Buarque da música alemã?«
»Ninguém.«
»Não tem assim uma coisa como ’música popular alemã’?«
Vixi. Tem. Na tradução literal, música popular é Volksmusik. Mas Volksmusik não é o que MPB é para o Brasil. Volksmusik tá meio morto, um resto da cultura dos anos 50 com toda aquela saudade de um mundo bonitinho como vocês devem conhecer das propagandas de geladeira daquela época. A maioria das pessoas que escutam Volksmusik cresceu naquela fase pós-guerra. Volksmusik é homens em calça curta de couro da Bavaria cantando sobre o amor da vida e mulherzinhas com cara de caseira dançando de vestido comprido fora da moda. As músicas são quase iguais e os shows só com playback – o valor musical … eh… qual valor músical? Uma gravadora de Volksmusik até tem um programa de composição que prodúz novas músicas dentro desse padrão. Sério, isso existe. Enquanto que música popular como samba é escrita por grupos e música erudita por individuos, Volksmusik não precisa nem de um único compositor.
Ainda bem que a Alemanha tem seus compositores clássicos como Beethoven e Bach. Mas as obras deles não são exatamente manifestações populares, e também isso foi séculos atrás.
O que tem de bom das décadas passadas tá nas subculturas. Os Krautrockers como Can dos anos 70, Ideal e outros punks da ’Neue Deutsche Welle’ dos anos 80, os começos do HipHop e do Indie dos anos 90. Nada muito ’alemão’, mais tipo uma reinterpretação dos movimentos internacionais.
Agora por favor, não pergunte sobre Rammstein. O conceito deles é vender a imagem escura da Alemanha no exterior. Na Alemanha, eles não são muito queridos por isso.
Então Kraftwerk? Tá, vamos ouvir Kraftwerk na aula. Técnica pura. Muito alemão. E os textos são poucos – bom para não sobrecarregar a aula. Mas se Kraftwerk faz da Alemanha um país simpático? Dúvido. Não tem Technozinho domingo a tarde com salsicha grelhada, reunindo a família toda. Mas devia ter, não é?! Eu curtiria.
Gente, vocês leram que teve eleições na Alemanha? Provavelmente não; dei uma olhada na New York Times da segunda, e não tinha nenhum comentário. O que aconteceu foi o seguinte: Nossa chanceler Angela Merkel foi eleita de novo. Essa vez ela pode governar junto com o pequeno partido liberal. Isso é mais cômodo para ela, uma cristã-democrata, do que como era os quatro anos passados que ela tinha que governar junto com o grande partido social-democrata.
Percebi que tem muita gente que acha bom que a Angela tá no poder, só porque ela é mulher.
Eu, pra falar verdade, fiquei frustrada quando ela foi eleita. O que é que o sexo biológico tem a ver com a política? Tá, as vezes, tem muito a ver. Quem precisou se emancipar para poder fazer carreira pode ter a tendência a favor de uma política emancipadora. Pode. Mas nem sempre. No caso da nossa Angie: não.
Ela é um homen disfarçado; a favor da estrutura patriarca. Tipo Maggie Thatcher, mas não chega a ser tão terrorizante assim.
Enquanto que por exemplo o Obama é mulher. Com ele, a conta simples dá certo: vem de uma minoria = faz política emancipadora.
Pelo menos um pouco. Mas cadê as mulheres de verdade, quando será que o tempo terá chegado para elas se mostrarem e manifestarem?
Conhece MC Gringo? Uma das estrelinhas do Funk Carioca, que os alemões, devido a algum malentendimento chamam de Baile Funk, como se fosse só a festa e não o estilo de música. Na Alemanha, os caras mais nerd da cena musical conhecem o Baile Funk, más só eles mesmo. (Ainda) não virou popular. O nerd vai pra show de Funk. Eu lá, no interior da Alemanha, no meio de nerds (só homem) pra ver Deize Tigrona.
Um amigo alemão ouviu o som de fora e perguntou pra mim depois: “Nossa, você gosta assim de Drum`n Bass, por horas?” Falei: “Cara, não é Drum`n Bass. É Funk. Quer dizer, Funk Carioca e aqui na Alemanha isso se chama de Baile Funk.” Ele falou: “Ah tá.” Contei que tinha um alemão nesse movimento também: O MC Gringo é um daqueles que foram pra o Rio de Janeiro, foram pra um funk, cataram uma mulata linda e nunca mais voltaram pra terra deles. A terra do MC Gringo é a Alemanha – pra mostrar a pesquisa exata – uma província no Sudeste com dialecto estranhéssimo, o Schwäbisch. Eu sempre achava o Schwäbisch criticável. O MC Gringo agora faz um sincretismo linguístico que é tipo… Tipo se fosse um sincretismo religioso entre Satanismo e alguma igreja evangélica. Tipo: duas coisas desagradáveis e nada a ver um com o outro. Gíria do funk com sotaque Schwäbisch. Interesante, más nao necessáriamente bom.
Mas MC Gringo é um cara esperto, ele sabe que não pode sair nada brilhante dessa combinação, por isso ele cuida bem do seu sotaque e produz um som com ironia: „Já sou quase brrrrrasileiro: Semprrrre na pista más sem dinheirrro”. Espero só que isso aqui também seja ironia: “Eu sou alemão, com sangue bom.” Sangue bom? Não é brincadeira falar isso, ainda sendo alemão. O Funk realmente tem seus melhores momentos quando não se leva a sério.
Outro dia, meu amigo comecou a cantar: “Ö-si-la-ma, ö-si-la-ma.“ Perguntei: „Que língua é essa? Hindi? Nepalês?” Ele disse: “Nao, pô, aquela música do MC Gringo. Escutei agora.” Fiquei pensando um pouco: “Ah, tá querendo dizer eu sou alemão!“ Tão vendo? O português tá espalhando pela mundo! port-eis-taspalha-pe-undo!
Você é estrangeiro e quer ir para uma manifestação na Alemanha?
Pode fazer.
Aqui não tem Polícia Militar.
É só saber algumas coisinhas.
A primeira questão é: de qual bloco você quer fazer parte?
Tem os blocos seguintes:
· Os autónomos (anarquistas) de preto, eles geralmente vão na frente
· O pessoal dos sindicatos e partidos de trabalhadores de vermelho com muitas bandeiras vermelhas
· Os verdes (do partido verde, greenpeace e outras organizações) que se veste colorido ou só de verde (lógico).
· O pessoal da igreja (difícil de reconhecer por alguma cor. Melhor olhar para a idade: geralmente é um grupo de senhoras e senhores).
· Os palhaços. Se vestem como palhaços. É mesmo.
Quando você tá na frente do seu guarda-roupa, tem que se decidir
· Se tiver um casaco preto com capuz e um pano para cobrir o rosto, pode andar com os autónomos. Mas esteja atento: Pode ser que vai apanhar. Da polícia ou dos nazistas. Melhor fazer um treinamento de briga ou de bloqueio. Não carrega nada pessoal com você. Só o número do grupo de ajuda jurídica da manifestação escrito no braço.
· Se tiver com uma bandeira vermelha, pode ir mais tranquilo. Bom é ter um bigode e saber algumas músicas antigas dos socialistas ou social-democratas.
· Uma bandeira com “pace” serve sempre. Vai no bloco dos verdes. O pessoal lá é jovem e bonito.
· Tem tempo para passar numa loja de carnaval? Então compre uma fantasia de palhaço. Aí só precisa de bastante coragem para dançar em frente dos policiais, tocar neles e fazer pose para a imprensa. Mas não se preocupe: Todo mundo gosta de você, até a polícia. Pode ir tranquilo.
· Não tem nada que presta no guarda-roupa? Então vai com o pessoal da igreja. Mas aí só pode participar em ações legalizadas. Bloqueios inoficiais e tal: Nem pensar.
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Agora vai lá na praça da reunião. Vai ter gente falando. Dos partidos políticos, sindicatos, grupos anti-fascistas ou anti-capitalistas e da igreja. Você bate palmas depois de cada frase que o cara do seu grupo fala. Nas falas dos outros, só bate palmas de vez em quando..
Quando estiver num bloqueio espera até que a polícia te carrega. Nao fique com medo, eles não vão te machucar muito se você se manter em paz.
Só se você estiver com roupa toda preta e com o rosto coberto, cuidado! A polícia tem muito medo de você. Não a provoque se não estiver preparado.
Numa manifestação tranquila, foi isso. Se não for tranquila e a polícia chegar com gás lacrimogéneo, faça a mesma coisa que faria em qualquer outro país: corra.
“…(e então eu te amo, sua retardada, assim como o mar ama o seixo mais pequeno no fundo dele, tanto assim que meu te-amar está te inundando – e ao seu lado será que voltarei a ser um seixo, se os céus deixarem)…”
Kafka para Milena
Quero te contar sobre Karl May, um escritor do século XIX. Eu, quando era criança, adorava ler os livros de aventura do Karl May. Uma série de livros dele é especialmente conhecida: Aquela sobre Winnetou, o cacique da tribo Apache, e Old Shatterhand, um cowboy branco. Os dois são amigos. Nao só amigos, mas irmãos de sangue! Sabe o que isso significa? Significa que num ritual eles se cortaram no braço e juntaram os braços sangrentos para que a sangue realmente se misturasse. Você já teve uma amizade dessa? Eu não. Os dois lutaram para a paz entre o “homem branco” e o “homem vermelho”, lá nos Estados Unidos do começo do século XIX. Desses livros também existe uma série de filmes dos anos 60 que eram muito populares entre os jovens alemães daquela época. Quando eu os assisti, já era uma coisa muito fora da moda, mas eu gostava mesmo assim. Sonhava de encontrar o cacique Winnetou com seus cabelos negros compridos e lisos e aquele sossego que ele incorporava e que impressionava todos os brancos colonizadores no filme e também a galera diante da tela. Ele e Old Shatterhand pareciam as únicas pessoas com mente esclarecida no meio de povos doidos num tempo doido.
Pode ver um trecho com as cenas mais famosas aqui
Como você deve ter reparado, os filmes eram bastante Kitsch. Cresci, percebi e não gostei mais. Conheci movimentos mais progressivos. Especialmente Marguerite Duras e me apaixonei pelas novelas e pelos filmes dela. Achei lindo. Ela pra mim parecia só contar uma mesma estória: a minha. Pode ver uma cena do filme Nathalie Granger (França, 1972) aqui
Nunca pensei na possibilidade que minhas duas paixoes tão diferentes, por Winnetou e Marguerite Duras, podiam ter algo em comum. Bem, digamos, além do prazer que os dois me deram.
Esses dias, descobri a chave para meu prazer nas duas obras:
O silêncio.
Lendo sobre análise feminista de filmes, consegui entender as formas: Você já deve ter ouvido falar que a lingua constrói e representa a ordem patriarca, certo? Então, expressar-se dentro de uma língua que não aceita ela (o femino) como sujeito, é a grande difficuldade da mulher. É um dos maiores desafios da teoria feminista: Usar a língua para destruí-la. Quase impossível.
Se falar não nós ajuda, será que não-falar é uma opção? Ficar em silêncio realmente às vezes pode ser bem mais poderoso do que falar. Veja só como as duas mulheres no filme Nathalie Granger intimidam o representante que quer vender algo para elas e elas simplesmente não respondem. Elas não seguem as convenções sociais, elas não precisam bater papo com qualquer pessoa. Uma tem a outra e elas se entendem e não sentem a necessidade de se esforçar para que alguém gostasse delas.
Era essa forma alternativa de interagir que eu admirava no Winnetou e Old Shatterhand. Quando criança e adolescente, eu sonhava de uma amizade que funcionava em rituais silenciosos, na confiança total entre um e o outro. Uma amizade fora do mundo barulhento e mentiroso do dia-dia.
Ficar em silêncio é um modo de resistência. Particular, mas eficaz. As mulheres de Marquerite Duras são sonhadoras, mas também são malvadas e sabem usar seu poder. No fim das estórias, elas sempre obtêm o que querem. E Winnetou e Old Shatterhand sempre sobrevivem nas suas aventuras.
No Brasil, ser a favor do próprio país é um gesto contra colonização, contra o imperialismo da Europa de ontém e dos Estados Unidos de hoje, para uma cultura diversa e misturada.
Na Alemanha, ser a favor do próprio país é complicado. Temos muita culpa na nossa história. Todos os esteriotipos que podem servir para uma identidade nacional alemã já foram violentados pelos fascistas. Quem é da esquerda aqui, é anti-nacional. Quem é do meio, pelo menos não fala muito sobre orgulho nacional e essas coisas. Só quem é da direita mesmo. Isso era assim por décadas e mudou no ano 2006:
Desde a copa mundial 2006 na Alemanha, os alemães só querem esquecer a nossa culpa histórica. Claro, os atos foram cometidos por gerações hoje mortas ou muito velhas. Mas é a nossa herança e quem pensa que na Alemanha de hoje em dia não tem mais racismo, está sendo ingênuo. Durante a copa, eu fui perguntada pela primeira vez na minha vida se eu era “alemã de verdade“. Porque pereço Italiana ou Argentina, disse um cara. Realmente não sou “alemã de verdade“ quer dizer “de sangue puro“ mas até então, isso não era um fato que interessava gente desconhecida na rua. Durante a copa, todo mundo andou com a bandeira, menos eu. E as pessoas em grupos de “bandeiristas“ comentaram sobre a falta da minha. Não me senti comfortável. De repente, tooodo mundo esteve tããão orgulhoso do nosso país. Gente, vivemos no século 21! Orgulho nacional é coisa do passado pra caralho. Muito de ontém mesmo.
Me senti sozinha no meu mal-estar.
Até os primeiros meses de 2008, quando o sentimento de mal-estar culminou no vômito coletivo da música “Raven gegen Deutschland“ quer dizer “dançar rave contra a Alemanha“, do trio de punk eletrônico Egotronic.
O rave contra o dia-dia, contra a pressão de sucesso, contra o materialismo e seu raciocínio anti-humano e contra o racismo escondido foi O HYPE do ano. Muitos jovens andam com o título da música escrito na camiseta.“Um beat para as pernas, uma mensagem para a mente” gritam os caras da banda na música. Que hype mais lindo. Acabou o tempo do Indie-Rock melancólico. A galera quer o beat rápido, quer excesso e claro que as drogas estão aí para ajudar.
Curti. Fui na onda. Nas provas do verão não tirei notas boas, nem meus amigos. E acho que foi assim para muitos outros jovens. Um momento de pensar autónomo e dizer: Não vou fazer só o que vocês querem que eu faça. Por enquanto, quero dançar eu vou dançar.
Com certeza, os raves no ar livre do verão serão minha melhor lembrança desse país escuro e obscuro da Europa Central em 2008.